Vacina experimental protege filhotes de pinguim-rei contra gripe aviária e reacende debate sobre conservação
Os resultados, publicados nesta semana na revista Nature Communications, abrem uma nova frente no debate sobre o uso de imunização como ferramenta de conservação da fauna silvestre em meio à maior panzootia de influenza já registrada.

Filhotes de pinguim-rei
Uma vacina de nova geração, baseada em RNA mensageiro autoamplificável, induziu uma resposta imune robusta e duradoura contra o vírus da gripe aviária altamente patogênica (H5N1) em filhotes de pinguim-rei na Antártica, sem efeitos adversos aparentes. Os resultados, publicados nesta segunda-feira (9) na revista Nature Communications, abrem uma nova frente no debate sobre o uso de imunização como ferramenta de conservação da fauna silvestre em meio à maior panzootia de influenza já registrada.
O estudo acompanhou 50 filhotes de pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus) por cerca de 250 dias em uma colônia natural no arquipélago de Crozet, no oceano Índico Sul. Trinta deles receberam duas doses da vacina experimental contra o subtipo H5 da influenza aviária; os demais formaram o grupo de controle. Ao final do monitoramento, 17 dos 19 animais vacinados que puderam ser recapturados ainda apresentavam níveis elevados de anticorpos neutralizantes, capazes de bloquear o vírus em testes laboratoriais, até o momento em que deixam a colônia para o mar.
Desde 2021, o vírus H5N1 do clado 2.3.4.4b espalhou-se por quase todos os continentes, provocando mortalidade em massa de aves marinhas, aves de rapina e mamíferos marinhos. Apenas em colônias densas, como as de pinguins e albatrozes, surtos podem eliminar milhares de indivíduos em poucas semanas. “Estamos diante de uma ameaça inédita à biodiversidade”, afirma Thierry Boulinier, ecólogo do CNRS francês e autor sênior do trabalho. “Espécies longevas, com reprodução lenta, são particularmente vulneráveis a choques de mortalidade adulta.”
Os números ajudam a dimensionar o risco. O H5N1 já foi associado à morte de centenas de milhares de aves silvestres desde o início da panzootia. Em regiões subantárticas, onde populações já sofrem pressão da pesca industrial e das mudanças climáticas, a chegada do vírus em 2023 acendeu o alerta máximo entre conservacionistas.
É nesse contexto que a vacinação surge como alternativa. Diferentemente de campanhas tradicionais em zoológicos ou criadouros, o experimento foi conduzido em condições naturais, com mínima interferência humana. Não houve diferença estatisticamente significativa no crescimento ou na taxa de sobrevivência entre filhotes vacinados e não vacinados, mesmo durante o rigoroso inverno austral. “Isso é crucial”, diz Mathilde Lejeune, autora sênior do estudo. “Mostra que a vacina é segura e não compromete o desenvolvimento dos animais.”
A tecnologia usada — RNA autoamplificável — permite que pequenas doses desencadeiem uma resposta imune intensa, reduzindo custos e facilitando a adaptação a variantes emergentes do vírus. Além disso, a vacina empregada possibilita distinguir animais vacinados daqueles naturalmente infectados, uma exigência central para monitoramento epidemiológico em campo.
Especialistas, porém, recomendam cautela. A vacinação em vida livre levanta dilemas éticos, logísticos e ecológicos. Quem vacinar? Em que escala? E quais seriam os efeitos de longo prazo sobre a dinâmica viral? “Não se trata de uma solução mágica”, observa Boulinier. “A vacinação deve ser pensada caso a caso, integrada a outras estratégias de vigilância e conservação.”
Ainda assim, o estudo marca um ponto de inflexão. Ao demonstrar que é possível induzir proteção imunológica persistente em uma espécie selvagem, em ambiente natural, a pesquisa sugere que a imunização pode deixar de ser exceção emergencial e passar a integrar o arsenal contra doenças que ameaçam a fauna global. Em um planeta cada vez mais conectado — inclusive por vírus —, a fronteira entre saúde animal, ambiental e humana torna-se, mais uma vez, impossível de ignorar.
Referência
Lejeune, M., Tornos, J., Bralet, T. et al. A vacinação contra o vírus da influenza aviária H5 HP leva a uma resposta imune persistente em pinguins-rei selvagens. Nat Commun 17 , 1395 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69094-9